Conselho: Palco ideal de aprendizado para herdeiros

Livros, artigos ou recomendações de consultores apontam que é muito benéfico que futuros herdeiros comecem a participar das reuniões do Conselho da empresa familiar. Defendem que os jovens acompanharão, entre outros aspectos, as discussões sobre assuntos empresariais em geral, o desenvolvimento e o desempenho econômico-financeiro, começando a aprender e a vivenciar o que acontece "no topo" da pirâmide empresarial — ou seja, a governança corporativa. Por outro lado, também se recomenda que os herdeiros, caso venham a trabalhar na empresa, comecem pela base da pirâmide, a fim de conhecer, na prática, as operações e os processos do negócio da família.
Defendo este aprendizado junto ao Conselho, que não deve se limitar a acompanhar passivamente as reuniões. Os jovens deverão aprender a falar, a opinar, a desenvolver o sentido de análise crítica e a participar em contextos de discussão em que predomina o contraditório.
Tenho observado, ao longo de mais de 20 anos de atividade junto a famílias empresárias, que a prática ainda está distante da teoria. Isto porque falta bom senso aos pais no sentido de desenvolver uma série de competências nos jovens, ou porque nunca lhes foi dita a real importância dos filhos serem ouvintes ativos nas reuniões do Conselho.
É importante dar voz aos jovens nas diversas discussões sobre os assuntos em pauta. Não se vai exigir dos herdeiros que interpretem ou comentem imediatamente uma análise económico-financeira da empresa — com os seus indicadores e percentagens — ou que discutam a viabilidade de investimentos e avanços tecnológicos. Devemos, sim, provocar o seu posicionamento sobre assuntos mais qualitativos, tais como análises conjunturais, o mercado em geral, a concorrência, a educação e a formação. Pode-se até atribuir uma "tarefa de casa" para que os jovens façam, na reunião seguinte, uma breve apresentação ao Conselho sobre um tema relevante para o negócio.
Em reuniões de Conselho, já pedi aos ouvintes que preparassem as suas intervenções sobre ESG, Compliance ou o ambiente político e social.
O que geralmente acontece é o contrário. Dificilmente vemos um jovem colocar suas ideias perante o Conselho ou ser estimulado a fazê-lo. A falta do contraditório, neste caso, é extremamente danosa ao Conselho, pois perdem-se oportunidades de olhar para o problema sob outro ponto de vista. O que se vê é que, geralmente, os jovens não querem, de forma alguma, opor-se aos pais numa discussão e partem do princípio de que o pensamento e as ideias do fundador devem prevalecer e estão corretos, expressando-o abertamente. Além disso, nas reuniões, geralmente, o presidente do Conselho é o primeiro a falar e a expor a sua opinião. Em raras ocasiões, observei pais pedindo a opinião dos filhos sobre os assuntos em discussão, ainda mais perante uma plateia seleta de conselheiros externos e independentes.
Podemos extrair a lição de que a nova geração não é incentivada, no âmbito da família ou do Conselho, a desenvolver certas capacidades cognitivas de extrema importância para a sua vida pessoal e empresarial.
Soma-se a isto a consulta permanente a ferramentas digitais, encaradas como uma espécie de mentores, o que corrobora essa atitude. Não sou contra as ferramentas de busca, mas elas precisam ser utilizadas com critério. Em vez de criar um ambiente para trocar ideias com os mais velhos sobre determinado assunto, os herdeiros buscam apoio no celular. A informação fornecida pelos aplicativos é considerada suficiente por quem consulta, não havendo, neste contexto, análise crítica. Isto gera uma passividade enorme.
O objetivo de convidarmos os jovens a assistir às reuniões do Conselho é prepará-los para assumir cargos de liderança no futuro. Como tal, deverão ser questionadores, saber avaliar riscos, formar a sua opinião através da troca de ideias e de consultas com pessoas experientes e, sobretudo, não ter receio de se expor perante os outros.
Outro desafio é despertar nos jovens o interesse pelos assuntos em discussão, em especial pela empresa familiar. Este interesse só poderá ser despertado ao motivar os herdeiros a participar nas discussões ou a assistir a reuniões de grupos de trabalho. As suas ideias deverão ser respeitadas — e rebatidas de forma construtiva e respeitosa caso estejam fora do contexto ou dos propósitos almejados.
Como resultado da falta de espaço, os jovens mergulham em seus celulares, totalmente alheios ao que acontece ao sua redor. Esta postura é desmotivadora para todos e anula o efeito pedagógico pretendido.
Para mudar esta realidade, é necessário criar espaços, cobrar a participação de forma educativa e dar feedbacks consistentes para que a nova geração avance trazendo uma visão de futuro para dentro da empresa e aumentando sua resiliência.







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