Conselheiros independentes: nem sempre bem-vindos

No Brasil, não há pesquisas de mercado consolidadas sobre o número de conselheiros independentes convidados a integrar Conselhos Consultivos no universo das empresas familiares. O IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) recomenda que um terço das cadeiras de um Conselho Consultivo sejam ocupadas por independentes.
Minha experiência pessoal, ao implantar governança corporativa em empresas familiares em vários estados brasileiros, tem mostrado que, via de regra, não há simpatia por parte dos empreendedores pioneiros em convidar independentes para se juntarem ao Conselho de suas empresas.
Conhecendo mais de perto os donos das empresas e sua trajetórias de vida tão amalgamadas ao negócio, essa postura em relação aos independentes não causa estranheza.
O dono, até então, tomava suas decisões sozinho. Já lhe é difícil formar um colegiado com os demais sócios familiares e, eventualmente, com alguns conhecidos, para compartilhar planos, ideias e decisões. Com o Conselho, ele pode ter a sensação de que perdeu o controle e o poder absoluto sobre a própria empresa.
O pioneiro costuma ser muito sensível a julgamentos. Por isso, os conselheiros dão suas opiniões com bastante diplomacia: sabem que qualquer opinião sobre um tema em pauta, se não for apresentada com o devido cuidado, pode ser percebida pelo dono como um ataque pessoal, ferindo o ego dele.
Ainda é comum, nos estágios iniciais de um Conselho, que assuntos de família e de negócios se misturem à pauta de discussão. Decisões táticas e estratégicas muitas vezes são tomadas sob o domínio da emoção, e não da razão. Privilégios a familiares são concedidos sem qualquer base lógica — inclusive indicações para postos de trabalho na empresa —, evidenciando o familiarismo e o amadorismo que ainda predominam na organização.
Talvez um dos pontos mais sensíveis seja a prestação de contas do dono da empresa. Em boa parte dos casos, os processos administrativos ainda são deficientes: as informações chegam com atraso e imprecisão, o que reflete uma gestão pouco formalizada.
Por fim, o empresário não se sente confortável com a contestação pública. Ele teme que sua autoridade seja enfraquecida, principalmente perante a família e os demais conselheiros — sejam amigos ou prestadores de serviços profissionais, os chamados conselheiros externos.
Por outro lado, temos a figura do conselheiro independente. Como o próprio nome indica, trata-se de uma pessoa sem laços de parentesco, amizade ou relações profissionais com o dono da empresa ou com os demais sócios. O independente atua, portanto, em um cenário livre de qualquer vínculo pessoal com os sócios. Espera-se dele que tenha construído uma sólida carreira profissional em um ramo de atividade semelhante ao da empresa para a qual foi convidado.
Seus anos de experiência profissional lhe deram uma visão estratégica que, se compartilhada e bem recebida pelo dono do negócio, pode trazer enormes benefícios. O independente costuma ter, também, grande experiência em governança, contribuindo com processos sucessórios de gestão, com a mediação de conflitos de interesse entre família, empresa e patrimônio e, sobretudo, com o bom funcionamento do Conselho do qual faz parte.
É de grande importância que o independente tenha habilidades pessoais, sobretudo para lidar com outras pessoas e com os donos de empresas. Como vimos, os pioneiros, em geral, não são pessoas fáceis e precisarão se abrir para assimilar novas ideias, abordagens, críticas e sugestões. Para que isso aconteça, os independentes precisam construir confiança e empatia em torno de si. É preciso humildade, sem provocar qualquer tipo de ameaça ou atrito. Muito diálogo será necessário.
Tenho observado que, a partir do momento em que a empresa atinge um certo grau de profissionalização da gestão — com reportes fidedignos que sirvam de boas ferramentas de gestão —, o dono da empresa passa a se mostrar mais acolhedor em relação ao conselheiro externo.
Encontrar um bom conselheiro independente é outro desafio, que será discutido em um próximo artigo. Mas, adiantando um pequeno spoiler: na maioria dos casos, o conselheiro independente tem contribuído, inegavelmente, para a melhoria da governança das empresas.







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